|
Domingo, 22 de novembro de 2009
|
Seja bem vindo(a)!
|
A difícil trajetória de um sonho comunista
Quando vejo Fidel Castro se despedindo do comando, não posso deixar de rememorar o rastro que essa figura, que marcou para sempre seu nome na História, deixou na minha vida, e na de milhões de pessoas da minha geração no mundo. Entrei no Partido Comunista Brasileiro por causa da revolução Cubana, embalado pela esperança daqueles jovens destemidos, reunidos nas montanhas, empunhando a causa da liberdade e da igualdade.
Como disse o historiador inglês Eric Hobsbawn no livro A Era dos Extremos, "a revolução cubana era tudo: romance, heroísmo nas montanhas, ex-líderes estudantis com a desprendida generosidade de sua juventude - os mais velhos mal tinham passado dos 30 -, um povo exultante num paraíso turístico tropical pulsando aos ritmos da rumba".
Não se pode negar que a revolução mudou Cuba definitivamente; fez despencar os índices de analfabetismo, mortalidade infantil, pobreza, enfim, imprimiu dignidade a uma ilha tratada como colônia de férias, local de diversão e jogo para turistas, homens de negócios lícitos e ilícitos, sobretudo, americanos.
O apoio da população aos guerrilheiros que chegaram a Havana em 1959 mostrou um povo necessitado de mudanças e o triunfo da revolução despertou a América Latina para a dura realidade da miséria, da subalternidade, da falta de dignidade humana. É impossível negar o impacto do embargo americano sobre a vida dos cubanos, sobretudo depois do fim do socialismo real e do desmoronamento da União Soviética.
Os EUA impuseram e ainda impõem penas àqueles que se relacionam comercialmente com a ilha caribenha. Se antes, com a ajuda dos soviéticos, ela conseguiu bons índices de crescimento e desenvolvimento social, após o colapso da URSS o desastre econômico se anunciou. Era hora de redefinir caminhos, buscar junto a países simpáticos a revolução, sobretudo na Europa Ocidental, um apoio para o trânsito para uma economia de mercado e um regime democrático. Mas a ortodoxia foi o refúgio escolhido por Fidel para o regime viver.
A oposição de Fidel às mudanças propostas por Gorbachev já mostrava uma postura conservadora e refratária às transformações e à abertura do sistema econômico e político vigente em Cuba. Esse é o momento no qual vejo um Fidel Castro diverso daquele da minha juventude. Um homem e um líder que se tornou apartado do tempo presente e que perdeu a oportunidade de fazer uma transição necessária para a democracia quando o socialismo ruiu.
As tímidas reformas econômicas de abertura para o investimento de capital estrangeiro do governo castrista só funcionaram no setor turístico - e assim mesmo gerando enclaves fechados para cubanos. Varadero é o mais famoso deles.
Na política, Fidel não arredou pé de um regime de partido único de corte ditatorial, centrado na sua figura. Agora que anuncia a saída, o mundo olha para Cuba. Alguns com o apetite da revanche, quando não da primitiva vingança. É claro que não haverá esse retorno e que mudanças ocorrerão. A revolução enraizou-se na população de Cuba e seus valores estão selados, mas as liberdades democráticas irão se impor. O novo governo terá mais uma oportunidade de operar a transição para a democracia, mantendo as conquistas da Revolução de 1959.
* advogado e presidente nacional do PPS. Artigo publicado no Jornal do Brasil.
Voltar
|
|
|